
EspiritualidadeData: 23/07/2010 - Por: Fagner José Wilman
"Queres conhecer a Deus? Conhece primeiro a ti mesmo. Sem autoconhecimento, corremos o risco de confundir Deus com nossas próprias idéias sobre ele." (Anselm Günn)
Até que ponto minhas idéias acerca de Deus não correspondem a meras criações minhas? Até que ponto, as idéias acerca de Deus, contidas na Escritura Sagrada, não são o desvelar das idéias que os escritores sagrados tinham sobre Deus?
Para responder a essa segunda indagação, encontro respostas naquilo que é o ensinamento da Igreja: A escritura sagrada é realmente a Palavra de Deus inspirada pelo Espírito Santo aos autores sagrados.
Ao ler a escritura, podemos facilmente perceber que desde o princípio, Deus vem ao encontro do homem sob diversas maneiras. No novo testamento, com a vinda de Jesus, temos a revelação plena e definitiva de Deus aos homens. São João da Cruz diz que nada mais Deus pode revelar-nos, pois tudo já revelou em seu filho Jesus. São Paulo, escrevendo aos hebreus diz: "Muitas vezes e de muitos modos Deus falou outrora a nossos pais pelos profetas. Agora, nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio de seu Filho. (Hb 1, 1-2) Em Jesus, Deus se revela plenamente a nós. Assim, é importante que interpelemos nossas crenças sobre Deus, procurando perceber se elas correspondem ao Deus revelado em Jesus de Nazaré.
A psicologia da religião já fez inúmeros estudos no intuito de entender como se forma a imagem e a conceituação de Deus no ser humano. Há um entendimento que essa construção tem por base fundamental a relação pueril da criança com o pai e a mãe. Ou seja: Nossas imagens internas de Deus contêm fragmentos de nossa relação familiar.
Nossa relação psicoafetiva com Deus está repleta de sentimentos herdados de nossa convivência com nossos primeiros cuidadores, especialmente com nosso pai e nossa mãe. Estudos mostram, inclusive, que pessoas que tiveram sérios problemas em relação aos pais nos primeiros anos de vida, correm o risco de ter dificuldades na sua relação com sua imagem de Deus ao longo da vida.
Um exemplo: Quando me deparo com essa idéia de um Deus paternalista, "um Deus paizão" como aquele pai que corre a todo custo atrás do filho, que não quer que o filho rale o joelho ao cair da bicicleta, fico pensando que há uma discordância entre essa idéia acerca de Deus e o Deus que Jesus veio mostrar. Pe. Inácio de Larrañaga escreveu em um de seus livros: "O Deus da bíblia é um Deus libertador, aquele que nos arranca de nossas inseguranças, ignorâncias e injustiças, não fugindo delas, mas enfrentando-as e superando-as".
Sim! Este é o Deus da bíblia: Não um Deus alienante, mas um Deus libertador. E essa libertação passa justamente por essa constante purificação que temos de fazer em nossas idéias sobre tudo que nos cerca, e, especialmente, sobre o Deus ao qual servimos. Sirvo ao Deus de Jesus ou às minhas projeções, necessidades e carências? Consigo me desvencilhar das falsas noções de Deus, esse "deus mágico", "deus mercadoria", "deus vingativo", que o mercado religioso, presente nas mídias me oferece?
Apesar das nossas fragilidades, ainda que carreguemos imagens distorcidas de Deus, apesar dos falsos profetas que se arrogam o direito de vir em nome de Deus, devemos ter a firme convicção que a Igreja nos propõe no catecismo: Deus se revelou ao homem e o homem tem a capacidade de encontrar-se com o Deus verdadeiro revelado em Cristo Jesus.
Fagner José Wilman